domingo, 8 de março de 2009

Cores musicais

Depois de uma noite dominada pela boa música - jazz no MAM, mpb, samba de roda e bossa nova - vou ousar sair de minha área e tratar de um assunto o qual eu conheço apenas como ouvinte: a música.

Na realidade, foi pouco depois do show de Gal Costa no Porto da Barra que fiquei imaginando o ‘senso comum’ - criado através das artes (músicas, poesias, artes plásticas) e o próprio cotidiano - no qual identificamos ou relacionamos as cores a determinados sentimentos.
Pensando em cores nas músicas relembrei de “Aquarela” de Toquinho, e lembrei que ficava fascinado com aquela propaganda da Fabber Castel e tentava, em vão, repetir no desenho as cinco ou seis retas e daí surgir um castelo, ou então com dois riscos fazer um guarda-chuva. O tubo de tinta poderia cair todo(não apenas um 'pinguinho') porque nada acontecia: nem gaivota voando, nem avião rosa e grená. Por muito tempo me perguntei, cor grená existe mesmo?

O começo de tudo foi ouvir Azul, de Djavan, na voz de Gal Costa. A letra da música fala de um amor “azulzinho”. Amor este, se estiver em falta, vai lá na maresia e “pega” um cheiro de azul e tudo se resolve. Quero um ter um amor assim, "azulzinho": calmo, tranquilo, como as águas do Porto da Barra.

No final, a música fala de um nascer do sol amarelinho, bem cedinho. Amarelinho, no contexto, tímido. Foi daí que me reportei à outra música, Yellow, ou “Amarela” do Coldplay. Ambas utilizam a cor para expressar o sentimento de timidez, falta de coragem...

Na música as estrelas brilham amarelo, ‘sem brilho’; a canção é ‘amarela’, a pele é ‘amarela’, a pessoa cuja canção foi dedicada também é ‘amarela’. É comum no dia-a-dia utilizar expressões como “amarelou”, quando deixou de fazer algo que poderia; ou mesmo “menino amarelo”, que é aquele que não tem iniciativa e coragem.
É imperioso recordar das aulas de Literatura ou Redação no Oficina. Magali Mendes chamava minha geração de "meninos amarelos" criados com danoninho. Ela utilizava a expressão exatamente contrapor a minha geração(dos anos 80) com a mítica geração dos anos 60 que lutou contra a ditadura. Pessoa rara Magali Mendes!


Ainda no final da música 'Yellow', o autor ao falar que doaria todo seu sangue para a “pessoa amarela”, acredito eu, seria com o intuito de conferir vida a ela, no sentido pleno da palavra. Pensamento contínuo lembrei da música Vermelho de Chico da Silva cantada por Fafá de Belém.

Vermelho, oposto do amarelo, traz toda uma carga de vida, força, ideologia e vitória: “A ideologia do folclore, avermelhou!”, "o fogo de artifício da vitória vermelhou”. Nas religiões de matriz africana, candomblé e umbanda, a cor vermelha é identificada com a orixá Iansã que é conhecida pela coragem, determinação e força.

Falando das religiões afro no Brasil é falar da raça negra. Em diversas canções de compositores, baianos principalmente, a cor Negra é exaltada como a cor da beleza, da resistência e da liberdade. Em Alegria da Cidade, de Lazzo: “A minha pele de ébano é a minha alma nua... Tem a plumagem da noite, e a liberdade da rua”; ou em O mais belo dos belos, de Guiguio / Valter Farias / Adailton Poesia: “A minha beleza negra...vai exalar seu charme para o mundo ver”; ou em Sorriso Negro: “Negro é uma cor de respeito”.

Para terminar com outra aquarela, não posso deixar de citar Trem das Cores de Caetano Veloso. A canção é uma boa mistura de sensações e uma profusão de cores: “a franja na encosta cor de laranja”, “crianças cor de romã”, “azul que é pura memória de algum lugar”, “lábios cor de açaí”. É
uma sinestesia(mistura) de sensações que envolvem a visão, o olfato, a audição, o tato e o paladar. É a própria vida!
Como diz Caetano: "E aqui trem das cores, sábios projetos": Enquanto ouve uma música, pegue a aquarela(rédea) de sua vida, perceba a quantidade de cores e tonalidades(oportunidades) que ela tem e sem medo de ser feliz, é só começar a pintar a próxima página em branco (o amanhã/o futuro!)

6 comentários:

  1. Cintra,vou fazer disso aqui um divã.São 23:55 e eu ROXA de saudades pq ele não PINTA!Já vi que a minha noite vai ser um BREU ! Abraços.(E olha que é virtual)...

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  2. Cara, esse jazz no MAN é simplesmente tudo de bom! Já tive a imensa oportunidade de freqüentar e diga a quem puder ir que vá. O jazz por si só já é sempre bem tocado e, juntando o por do sol do Solar do Unhão, fica inenarrável. Ainda por cima é baratinho ( no dia eu eu fui , R$2,00) Gente, nem parece que estamos em Salvador. Só faltou Aretha Franklin pra fechar o pacote!

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  3. Você foi muito feliz nas suas colocações. Concordo com tudo que disse. Meu DEUS é bom demais para fazer pacto com esses , que si dizem, divulgadores da lei cristã. A sensatez tem que dar lugar ao fanatismo. Parabéns!

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  4. Ei, amei este post!
    Sério!!!
    Quanta criatividade meu nobre advogado jovem, bonito elegante, educado e muito sincero...
    No seu texto, “Cores Musicais”, me fez recordar de uma situação que vivi qdo... não fui contratada por uma emissora de rádio em Salvador, pq... era de cor “Negra”, e na época um loira dos olhos verde e muito bonita pelo sinal, hj uma grande amiga, foi chamada uma semana depois para ficar no meu lugar.
    Fiquei muito triste! E lendo seu post, tenho a plena convicção que o negro hj é uma cor de respeito e não importa a cor da pele, todos somos capazes...
    Como diz a baixo o refrão da música do Seu Jorge e Daniela:

    Um abraço negro
    Um sorriso negro
    Traz. felicidade
    Negro sem emprego
    Fica sem sossego
    Negro
    É a raiz da liberdade

    Negro é uma cor de respeito
    Negro é inspiração
    Negro é silêncio, é luto
    Negro é a solidão

    Negro que já foi escravo
    Negro é a voz da verdade
    Negro é silêncio é a luta
    Negro também é saudade

    Um grande bj Cintra.
    CR.

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  5. Maria Fernanda Cintra13 de março de 2009 02:51

    Simplesmente SENSACIONAL!!!!!!!

    De longeeeee... seu melhor post, na minha sincera e humilde opinião!! Ameeei de verdade!!!

    A sua criatividade aflora, e eu poderia ficar aqui horas lendo sua descrição sobre as cores e suas associações na vida...

    Concordo plenamente que nossa vida seja uma página em branco, e que em nossas mãos temos uma aquarela, da qual usamos e pintamos à nossa vontade... "A vida tem a cor que a gente pintar...", já dizia Ivan Segall, e eu assino embaixo!


    BeijOs :*


    Ps: tinha que falar... Magali Mendes e sua teoria de meninos amarelos criados com danoninho é sensacional... kkkkkkkkkkkkkkk... aiiii q saudade das colocações e das teorias dela... hauhauahuaha realmente, ela é uma figura únicaa! Que saudade do Oficina!!

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  6. Meninoooo!
    que coisa mais linda... comentando esse pq fui dando uma olhada geral antes de escolher um pra ler.. qd vi esse decidi começar! e que boa escolha!! adorei!!! agora vou correndo baixar o "trem das cores" e me deliciar :P!
    Muito bom!
    Parabéns!!!
    :**********************

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